Grupo de pesquisa ligado à linha de Comunicação e Política do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal do Paraná.

Preconceitos, estereótipos e narrativas populistas

 

 

Por Aryovaldo de Castro Azevedo Junior [1]

 

O pensamento pode ser compreendido como um comportamento de duas etapas, sendo uma rápida e instintiva, plena de simplificações, heurísticas e estereótipos; outra lenta e crítica, identificada como a forma cartesiana e racional de refletir sobre informações variadas. Ambas atuam em concomitância e, embora possamos ignorar este funcionamento cerebral, cientistas cognitivos consideram que respostas plenas de heurísticas intuitivas economizam energia cerebral, o que é biologicamente recompensado pelo organismo como forma de otimizar o uso energético vital. Em contrapartida, nem sempre respostas rápidas e intuitivas são as mais efetivas para questões complexas (KAHNEMAN, 2012).

A base do raciocínio populista consiste em elementos-chave como valorização da soberania popular, numa concepção idealizada de comunidade homogênea e singular, composta por pessoas de boa índole que representam os puros interesses da pátria em contraponto a uma elite corrupta e a grupos nocivos que se unem em busca de vantagens indevidas e em detrimento do povo  (GONZALES, 2007).

O centro de pesquisa grego Populismus estabelece dois critérios mínimos para um discurso populista, sendo o primeiro formado por referências realçadas a ‘o povo’ e a ‘vontade popular’ e a necessidade de sua representação verdadeira. O segundo seria uma percepção antagônica do terreno sociopolítico como uma esfera dividida entre ‘o povo’ e ‘as elites’ (NARITA e MORELOCK, 2019 [po.100]).

Assim, o populismo produz uma moralidade particular que joga o povo contra a elite tecnocrática, opondo dois conteúdos essencialmente antagônicos: a pureza de uma vontade coletiva contra a forma corrupta da política encampada pela elite. A estigmatização de o povo por antipopulistas degrada a soberania popular, ao passo que a ascensão da tecnocracia, como uma resposta às decisões deseducadas das massas, destrói qualquer direção democrática que a política possa vir a assumir. Nesta dinâmica afloram as narrativas populistas (ENGESSER, 2017).

As estratégias comunicacionais de lideranças populistas contemporâneas utilizam narrativas transmidiáticas com o intuito de reforçar o impacto emocional da comunicação (transmidia storytelling), e o uso recorrente de estereótipos para facilitar o processo de comunicação, associação e lembranças de ideias simplistas é nevrálgico neste tipo de narrativa. Enquanto a comunicação massificada usualmente ocorre com uma abordagem mais formal por meio de relações com a grande imprensa, a comunicação segmentada tem se concentrado em redes sociais como Facebook, Twitter e Instagram, que possibilitam uma abordagem mais emocional.

A fim de potencializar a visibilidade midiática, lideranças populistas valem-se de abordagens sensacionalistas, que tendem a gerar maior engajamento nas redes sociais, as quais pressionam a cobertura da imprensa em virtude da evidência que esta gera, estabelecendo um circuito fechado que se retroalimenta de modo simbiótico.

Os movimentos populistas e as formas de polarização a eles associadas são também momentos para a produção de identidades e narrativas coletivas que, com as redes sociais e a polarização ali estimulada por diversas dicotomias sociais (elite/povo, nacionalistas/globalistas, esquerda/direita, progressista/conservador etc) desempenham um papel central na consolidação de bolhas ideológicas que reforçam posicionamentos que concorrem de modo a inviabilizar o diálogo, com cenários beligerantes que alimentam o discurso populista e fragilizam a democracia.

 

Mixed emotions: Razão e emoção

Aparentemente as pessoas são, no geral, racionais, com opiniões normalmente consistentes, o que é rompido quando emoções, como medo, afeição e ódio, interferem na criticidade. O passional e o racional são faces da mesma moeda, no caso, nosso cérebro, e atuam em concomitância através de céleres operações sinápticas que buscam informações guardadas em nosso repositório cerebral por meio de associações em rede, usualmente relacionáveis por processos de semelhança, contiguidade de tempo e lugar, e causalidade.

Desta forma, fica evidente que respostas automáticas, geralmente passionais, são instantaneamente acessadas intuitivamente (heurística) enquanto respostas que requerem reflexão e maior dispêndio energético são acessadas, biologicamente, com mais moderação (KAHNEMAN, 2012 [po.876]).

Kahneman (2012) caracteriza este funcionamento como sistema 1 (automático) e sistema 2 (planejado), sendo que o sistema 1, heurístico e intuitivo, vale-se de informações simplificadoras (estereótipos) enquanto o sistema 2, crítico e racional, vale-se de relações menos intuitivas. Esta sofisticada rede de alocação de atenção e busca endógena de informações tem sido aperfeiçoada por uma longa história evolucionária, na qual a orientação e reação rápidas ante as ameaças mais sérias ou as oportunidades mais promissoras melhoravam a chance de sobrevivência (sistema 1).

Para situações inovadoras ou mais complexas, que demandam uma inteligência que requer a capacidade de encontrar material relevante impregnado na rede neural e buscado por relações associativas, requer a correlação de variáveis que são processadas de modo analítico, resultando no desenvolvimento de raciocínios reflexivos e abstratos, que demandam mais tempo, também essenciais no processo evolutivo (sistema 2).

Assim, ambos os sistemas se influenciam continuamente, fazendo com que estereótipos de base possam influenciar em considerações lógicas e racionais enquanto estas também influenciam percepções estereotipadas, numa dinâmica continua e integrada entre o pensamento rápido (heurístico) e o pensamento lento (reflexivo).

 

Política e narrativas

Numa sociedade hiperinformada a disputa pela atenção estrutura comportamentos que buscam romper a indistinção com o uso de elementos surpreendentes, extraordinários ou disruptivos (WU, 2016). A criação ou exploração de situações impactantes, com potencial de midiatização e viralização, têm pautado a ação de atores políticos para a consecução de espaço midiático editorial com o intuito de difundir posições ideológicas que reverberem no imaginário dos cidadãos a fim de consolidar preferências e atitudes.

A adaptação do discurso político para o reforço de estereótipos repetidos de modo intenso a fim de, em algum momento, gerar um ponto de contato com receptores e, assim, ser notado, minimamente compreendido e possivelmente compartilhado, num processo de memetização da comunicação, que transforma questões complexas em reduções irônicas ou cômicas de situações, carregando uma informação essencial desvinculada de racionalizações ou contextualizações, mas plena de estereótipos que são facilmente decodificados e absorvidos pelos receptores.

Na narrativa política, isto é aplicado a identidades estereotipadas adotadas por atores políticos a fim de tornar suas imagens mais mercantilizáveis e identificáveis num contexto hiperinformacional em que o impacto e a redução de elementos informacionais são essenciais para estabelecer uma compreensão mínima (BENTES, 2016).

Mecanismos retóricos como insinuação (sugestão de dados falsos para induzir a conclusões enviesadas), pressuposição (dar algo como certo sem questionamento), descontextualização (a falta do contexto adequado possibilita a manipulação dos fatos),  inversão da relevância (uso de aspectos secundários com o intuito de torná-los  relevantes) e  a difusão de boatos e mentiras são utilizadas de modo recorrente por alguns atores políticos, inserindo ainda mais dramaticidade ao espetáculo político como retratam as manchetes da narrativa anti-China desenvolvida pela administração de Donald Trump de modo a consolidar a posição de luta contra um inimigo externo que ataca as liberdades democráticas, a estrutura do capitalismo e o sistema de vida que conhecemos (american way of life). Alguns capítulos que reforçam esta linha narrativa de resistência ao ascendente e impiedoso poderio chinês:

 

China desestrutura o sistema capitalista com práticas nocivas contra o livre comércio, o que gera desemprego, déficit na balança comercial e má influência na dinâmica econômica global que abala a liderança dos EUA.

China desestrutura o multilateralismo com sua influência em órgãos como  Organização Mundial do Comércio (WTO) e Organização das Nações Unidas (ONU) como seu órgão dedicado à Saúde, a Organização Mundial de Saúde (WHO)[2][3].

China ataca valores democráticos ao desrespeitar a autonomia de Hong Kong, buscar interferir nas eleições norte-americanas e espionar governos democráticos e corporações destes países[4][5][6].

China inescrupulosa ao atacar o planeta para obter lucro e desestabilizar a economia mundial com vírus chinês (coronavírus)[7] [8] [9].

 

“Smart love”, mural do artista de rua Tvboy, pintado em Milão, como provocação ao presidente chinês, Xi Jinping, e ao presidente estadunidense, Donald Trump.

“Smart love”, mural do artista de rua Tvboy, pintado em Milão, como provocação ao presidente chinês, Xi Jinping, e ao presidente estadunidense, Donald Trump.

Considerações finais

A capacidade de influenciar a opinião pública é uma das variáveis mais desejadas e valorizadas na ação do marketing político, com especialistas de áreas como publicidade, jornalismo, relações públicas, psicologia, informática, dentre outras, interagindo de modo orquestrado para implementar ações coordenadas com o intuito de agendar a pauta informacional a ser debatida no corpus social, com ações variadas implementadas por atores políticos com o intuito de interferir na opinião pública. Exposição de argumentos e pontos de vista são desenvolvidos para atingir segmentos da sociedade e levá-los a aderir a uma causa, ideia ou organização, muitas vezes de forma a gerar desinformação e estimular visões estereotipadas e preconceituosas, com o estímulo a heurísticas simplistas que ganham corpo em narrativas bem estruturadas e organizadas num universo temporal duradouro, que ganha força em momentos variados com temas que reverberem pontualmente na sociedade.

Trump tenta vincular a vitória do democrata Joe Biden a interesses globalistas encabeçados pela China, que reforçarão a derrocada norte-americana numa espiral de regressão econômica e cultural que pode levar a América (e o american way of life) ao ocaso, num nítido discurso populista que busca construir num inimigo externo as mazelas por incapacidades internas de sua administração, somadas a mudanças estruturais no capitalismo contemporâneo.

Esta postura iconoclática de outsider antissistema funcionou em 2016, quando derrotou a democrata Hillary Clinton. Aparentemente não será bem-sucedida em 2020, quando mantém a mesma retórica explosiva embora, paradoxalmente, ocupe o cargo de presidente da República, representante simbólico máximo do status quo[10][11].

Incertezas eleitorais à parte, tem-se como certo o crescente preconceito contra a China, que tem se consolidado em odes nacionalistas, fazendo com que o discurso de ódio ganhe força nos EUA e em países que emulam sua narrativa, como o Brasil. Nesta incipiente e crescente disputa geopolítica sino americana, o planeta volta a enfrentar uma disputa bipolar, na qual fenece o multilateralismo e suas narrativas complexas, que demandavam reflexões racionais sobre o funcionamento do sistema global, para o crescimento de simplificações maniqueístas e estereotipadas, inerentes à retórica passional que gera reações instantâneas do sistema límbico e torna narrativas verossímeis, nem sempre verdadeiras, elementos discursivos ainda mais poderosos. Somados a hiperinformação e o boom de fake news, deep fakes e outras estratégias de desinformação, temos um cenário perigoso em que a ficção distópica torna-se mais próxima em contraste a uma realidade pouco alvissareira no âmbito geopolítico global.

Joe Biden pode ser a pá de cal na meteórica carreira de Donald Trump, mas isto não significa a derrocada de populismos nacionalistas simbolizados por este presidente norte-americano que enfraqueceu a pujante democracia estadunidense em troca de apoio de grupos conservadores que crescem com discursos bélicos e religiosos sob as franjas ufanistas que tem caracterizado o populismo neste início de século XXI.

 

 

[1] Aryovaldo de Castro Azevedo Junior é Professor do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Paraná (UFPR), com Pós-doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP) e Doutorado em Multimeios pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Também coordena o Grupo de pesquisa Comunicação Eleitoral (CEL), vinculado à UFPR.

[2] Donald Trump attacks China at the UN for unleashing ‘plague’ upon the world – then hits the regime for dumping ‘millions and tons of plastic and trash into the oceans’ and causing ‘rampant pollution’ <https://www.dailymail.co.uk/news/article-8760337/Donald-Trump-attacks-China-unleashing-plague-world.html>

[3] Trump’s decision to pull U.S. out of WHO will boost China’s influence <https://www.washingtonpost.com/politics/2020/06/23/trumps-decision-pull-us-out-who-will-boost-chinas-influence/>.

[4] Trump Signs Hong Kong Democracy Legislation, Angering China <https://www.nytimes.com/2019/11/27/us/politics/trump-hong-kong.html>.

[5] Trump Says China Wants Him to Lose the U.S. Presidential Election. The Truth Is More Complex <https://time.com/5894125/trump-biden-us-election-china/>.

[6] U.S. officials: Using Huawei tech opens door to Chinese spying, censorship <https://www.nbcnews.com/politics/national-security/u-s-officials-using-huawei-tech-opens-door-chinese-spying-n1136956>.

[7] Trump says coronavirus worse ‘attack’ than Pearl Harbor <https://www.bbc.com/news/world-us-canada-52568405>.

[8] When Trump gets coronavirus, Chinese Americans pay a price <https://www.ndtv.com/world-news/trump-attacks-china-again-says-its-china-virus-coronavirus-sounds-like-a-beautiful-place-in-italy-2299685>.

[9] Trump has repeatedly blamed China for a virus that now threatens his health. This will make Beijing nervous <https://edition.cnn.com/2020/10/02/asia/trump-china-coronavirus-intl-hnk/index.html.>.

[10] O próximo presidente dos EUA deve ser conhecido em até dez dias após as eleições e Biden tem 75% de chances de vitória, afirma diretor da Eurasia <https://www.infomoney.com.br/politica/o-proximo-presidente-dos-eua-deve-ser-conhecido-em-ate-dez-dias-apos-as-eleicoes-e-biden-tem-75-de-chances-de-vitoria-afirma-diretor-da-eurasia/>.

[11] Joe Biden é franco favorito nos EUA porque 2020 é bem diferente de 2016 <https://noticias.uol.com.br/colunas/kennedy-alencar/2020/10/11/biden-e-franco-favorito-porque-2020-e-bem-diferente-de-2016.htm>.

 

Referências

BENTES, Ivana. A memética e a era da pós-verdade. Revista Cult, 31 Out. 2016. Disponível em <https://revistacult.uol.com.br/home/a-memetica-e-a-era-da-pos-verdade/>. Acesso em 11 out. 2020.

ENGESSER et al. Populism and social media: how politicians spread a fragmented ideology. Information, Communication & Society, 2017.  Disponível em <https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/1369118X.2016.1207697>. Acesso em 15 ago. 2020.

GONZALES, Osmar. Los Orígenes Del populismo latinoamericano. Cuadernos del Cendes, v.24, n.66, 2007. Disponível em <http://ve.scielo.org/scielo.php?pid=S1012-25082007000300005&script=sci_arttext>. Acesso em 15 set. 2020.

KAHNEMAN, Daniel. Rápido e devagar: Duas formas de pensar [e-book versão Kindle]. Rio de Janeiro: Ed.Objetiva, 2012.

NARITA, F.Z. e MORELOCK, J. O Problema do Populismo: Teoria, Política e Mobilização [e-book versão Kindle]. Jundiaí, Paco Editorial, 2019.

WU, Tim. The Attention Merchants: The Epic Scramble to Get Inside Our Heads [e-book versão Kindle], Editora Vintage, 2016.